As palavras dizem também outras coisas quando enunciam o que enunciam, (...) “eu te amo” nem sempre é um incêndio, infinitas vezes é monotonia, o que vai do coração à língua perde muito de sua seiva no caminho, como a água é menos água entre o copo e a boca, o mel é menos mel no percurso do pólen ao favo.
João Anzanello Carrascoza
João Anzanello Carrascoza (1962-) é um professor e escritor brasileiro. O autor já venceu prêmios importantes, como o Jabuti, o APCA e o Guimarães Rosa, e teve seus livros traduzidos para vários países. Algumas de suas obras são: "Amores mínimos" (2011), "Aos 7 e aos 40" (2016), "O homem que lia as pessoas" (2016), a Trilogia do Adeus (composta por "Caderno de um ausente", "Menina escrevendo com pai" e "A pele da terra"), "Aquela água toda" (2018) e "Elegia do irmão" (2019).
Frases e citações
As palavras dizem também outras coisas quando enunciam o que enunciam, (...) “eu te amo” nem sempre é um incêndio, infinitas vezes é monotonia, o que vai do coração à língua perde muito de sua seiva no caminho, como a água é menos água entre o copo e a boca, o mel é menos mel no percurso do pólen ao favo.
Sonhar nos salva da rotina, mas também nos desliga da única coisa que nos mantém na vigília: o muro concreto do presente.
O tempo (...) vai te violar de mansinho, a ponto de nem perceber, senão quando diante do espelho te espantar com o desenho perverso que, sorrateiro, ele moldou em teu corpo.
O mistério de cada um só a ele pertence, há regiões nossas às quais nem nós mesmos alcançamos.
O amor não é de uma vez só, o amor se torna amor aos poucos, o amor parece ser sempre o mesmo, como a paisagem, mas o amor, imperceptivelmente, aumenta. O amor aumenta e se torna, como certas dores, maior do que suportamos.
Tua vida, filha, é um texto que há tempos começamos a escrever, mas, daqui em diante, também te cabe pegar esta tinta e delinear o teu curso, tome só cuidado com o que retiras do nada e trazes à superfície, é comum borrar ou rasurar um trecho, mas é impossível apagá-lo, a palavra se faz carne, e a carne se lacera, a carne apodrece aos poucos, mas é também pela carne que a palavra se imortaliza. Não há borracha para um fato já vivido, pode-se erguer represas e costões, muralhas e fortalezas para barrar o fluxo das horas, mas, uma vez que o sol se torne sombra, que o luar penda no céu em luto, a névoa se disperse na paisagem pendurada à parede, o dedo acione o gatilho, nada mais se pode fazer; nossa jornada, aqui, é única, a ninguém será dada a prerrogativa, salvadora ou danosa, da reescrita.
Talvez fosse melhor medir as distâncias de outra maneira. Não como por espaço e tempo, como se faz até agora. Mas pelo que se aprende no caminho.
Territórios e conexões
Qualidade e enriquecimento
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