Que a saudade é o pior tormento, é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar...
Chico Buarque
Francisco Buarque de Hollanda (1944-), ou Chico Buarque, é um músico, compositor, poeta, dramaturgo e escritor brasileiro. É considerado um dos mais importantes nomes da MPB. Em 2019, recebeu o Prêmio Camões de Literatura pelo conjunto da obra (incluindo livros, músicas e peças). É autor de clássicos como Apesar de Você, Quem Te Viu, Quem Te Vê, Roda Viva, Olhos nos Olhos, Cálice, entre outros.
Frases e citações
Soneto Por que me descobriste no abandono Com que tortura me arrancaste um beijo Por que me incendiaste de desejo Quando eu estava bem, morta de sono Com que mentira abriste meu segredo De que romance antigo me roubaste Com que raio de luz me iluminaste Quando eu estava bem, morta de medo Por que não me deixaste adormecida E me indicaste o mar, com que navio E me deixaste só, com que saída Por que desceste ao meu porão sombrio Com que direito me ensinaste a vida Quando eu estava bem, morta de frio
Te perdoo por fazeres mil perguntas que em vidas que andam juntas ninguém faz...
Vê passarela, como dança balança a pança e recua, a gente sua, a roupa suja da cuja se lava no meio da rua...
Venha, meu amigo. Deixe esse regaço. Brinque com meu fogo. Venha se queimar. Faça como eu digo. Faça como eu faço. Aja duas vezes antes de pensar... Eu semeio o vento. Na minha cidade. Vou pra rua e bebo a tempestade.
E se vai continuar enrustido com essa cara de marido, a moça é capaz de se aborrecer. Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz.
Atrás da porta Quando olhaste bem nos olhos meus E o teu olhar era de adeus Juro que não acreditei, eu te estranhei Me debrucei sobre teu corpo e duvidei E me arrastei e te arranhei E me agarrei nos teus cabelos No teu peito, teu pijama Nos teus pés ao pé da cama Sem carinho, sem coberta No tapete atrás da porta Reclamei baixinho Dei pra maldizer o nosso lar Pra sujar teu nome, te humilhar E me vingar a qualquer preço Te adorando pelo avesso Pra mostrar que ainda sou tua
Futuros amantes Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante Milênios, milênios no ar E quem sabe, então O Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão Explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos Sábios em vão Tentarão decifrar O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização
O que será ser só Quando outro dia amanhecer? Será recomeçar? Será ser livre sem querer?
Apesar de você Amanhã há de ser Outro dia
Quando nasci veio um anjo safado O chato dum querubim E decretou que eu estava predestinado A ser errado assim Já de saída a minha estrada entortou Mas vou até o fim
A felicidade Morava tão vizinha Que, de tolo, Até pensei que fosse minha.
Quando eu amo Eu devoro Todo o meu coração Eu odeio Eu adoro Numa mesma oração
De todas as maneiras Que há de amar Nós já nos amamos Com todas as palavras feitas pra sangrar Já nos cortamos Agora já passa da hora Tá lindo lá fora Larga a minha mão Solta as unhas do meu coração Que ele está apressado E desanda a bater desvairado Quando entra o verão
DESENCONTRO A sua lembrança me dói tanto Eu canto pra ver Se espanto esse mal Mas só sei dizer Um verso banal Fala em você Canta você É sempre igual Sobrou desse nosso desencontro Um conto de amor Sem ponto final Retrato sem cor Jogado aos meus pés E saudades fúteis Saudades frágeis Meros papéis Não sei se você ainda é a mesma Ou se cortou os cabelos Rasgou o que é meu Se ainda tem saudades E sofre como eu Ou tudo já passou Já tem um novo amor Já me esqueceu
EU TE AMO Ah, se já perdemos a noção da hora Se juntos já jogamos tudo fora Me conta agora como hei de partir Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios Rompi com o mundo, queimei meus navios Me diz pra onde é que inda posso ir Se nós, nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas Diz com que pernas eu devo seguir Se entornaste a nossa sorte pelo chão Se na bagunça do teu coração Meu sangue errou de veia e se perdeu Como, se na desordem do armário embutido Meu paletó enlaça o teu vestido E o meu sapato inda pisa no teu Como, se nos amamos feito dois pagãos Teus seios inda estão nas minhas mãos Me explica com que cara eu vou sair Não, acho que estás só fazendo de conta Te dei meus olhos pra tomares conta Agora conta como hei de partir
Por favor Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d'água
Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar
Hoje na solidão ainda custo A entender como o amor foi tão injusto Pra quem só lhe foi dedicação
Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração
Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu
Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem E também pra me perpetuar em tua escrava Que você pega, esfrega, nega Mas não lava
Cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa De muito gorda a porca já não anda De muito suada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça
Amando noites afora Fazendo a cama sobre os jornais Um pouco jogados fora Um pouco sábios demais Esparramados no mundo Molhamos o mundo com delícias As nossas peles retintas De notícias
Trocando em miúdos Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim Não me valeu Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu Trocando em miúdos, pode guardar As sobras de tudo que chamam lar As sombras de tudo que fomos nós As marcas de amor nos nossos lençóis As nossas melhores lembranças Aquela esperança de tudo se ajeitar Pode esquecer Aquela aliança, você pode empenhar Ou derreter Mas devo dizer que não vou lhe dar O enorme prazer de me ver chorar Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago Meu peito tão dilacerado Aliás Aceite uma ajuda do seu futuro amor Pro aluguel Devolva o Neruda que você me tomou E nunca leu Eu bato o portão sem fazer alarde Eu levo a carteira de identidade Uma saideira, muita saudade E a leve impressão de que já vou tarde
Até Pensei Junto à minha rua havia um bosque Que um muro alto proibia Lá todo balão caía Toda maçã nascia E o dono do bosque nem via Do lado de lá tanta aventura E eu a espreitar na noite escura A dedilhar essa modinha A felicidade Morava tão vizinha Que, de tolo Até pensei que fosse minha Junto a mim morava a minha amada Com olhos claros como o dia Lá o meu olhar vivia De sonho e fantasia E a dono dos olhos nem via Do lado de lá tanta ventura E eu a esperar pela ternura Que a a enganar nuca me via Eu andava pobre Tão pobre de carinho Que, de tolo Até pensei que fosse minha Toda a dor da vida Me ensinou essa modinha Que, de tolo Até pensei que fosse minha
Carolina Carolina Nos seus olhos fundos Guarda tanta dor A dor de todo esse mundo Eu já lhe expliquei que não vai dar Seu pranto não vai nada mudar Eu já convidei para dançar É hora, já sei, de aproveitar Lá fora, amor Uma rosa nasceu Todo mundo sambou Uma estrela caiu Eu bem que mostrei sorrindo Pela janela, ói que lindo Mas Carolina não viu Carolina Nos seus olhos tristes Guarda tanto amor O amor que já não existe Eu bem que avisei, vai acabar De tudo lhe dei para aceitar Mil versos cantei pra lhe agradar Agora não sei como explicar Lá fora, amor Uma rosa morreu Uma festa acabou Nosso barco partiu Eu bem que mostrei a ela O tempo passou na janela Só Carolina não viu
Construção Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Mesmo em sonho estive atento para poder lembrar-te sempre
Quem me vê sempre parado, distante Garante que eu não sei sambar Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar
Soneto Por que me descobriste no abandono Com que tortura me arrancaste um beijo Por que me incendiaste de desejo Quando eu estava bem, morta de sono Com que mentira abriste meu segredo De que romance antigo me roubaste Com que raio de luz me iluminaste Quando eu estava bem, morta de medo Por que não me deixaste adormecida E me indicaste o mar, com que navio E me deixaste só, com que saída Por que desceste ao meu porão sombrio Com que direito me ensinaste a vida Quando eu estava bem, morta de frio
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz
O que será (À flor da pele) O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo, me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os ungüentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia Que nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite O que será que me dá Que me queima por dentro, será que me dá Que me perturba o sono, será que me dá Que todos os tremores me vêm agitar Que todos os ardores me vêm atiçar Que todos os suores me vêm encharcar Que todos os meus nervos estão a rogar Que todos os meus órgãos estão a clamar E uma aflição medonha me faz implorar O que não tem vergonha, nem nunca terá O que não tem governo, nem nunca terá O que não tem juízo
O amor jamais foi um sonho, o amor, eu bem sei, já provei, é um veneno medonho. É por isso que se há de entender que o amor não é ócio, e compreender que o amor não é um vício, o amor é sacrifício, o amor é sacerdócio.
Será que ela é moça? Será que ela é triste? Será que é o contrário?
O meu amor O meu amor Tem um jeito manso que é só seu E que me deixa louca Quando me beija a boca A minha pele inteira fica arrepiada E me beija com calma e fundo Até minh'alma se sentir beijada, ai O meu amor Tem um jeito manso que é só seu Que rouba os meus sentidos Viola os meus ouvidos Com tantos segredos lindos e indecentes Depois brinca comigo Ri do meu umbigo E me crava os dentes, ai Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz Meu corpo é testemunha Do bem que ele me faz O meu amor Tem um jeito manso que é só seu De me deixar maluca Quando me roça a nuca E quase me machuca com a barba malfeita E de pousar as coxas entre as minhas coxas Quando ele se deita, ai O meu amor Tem um jeito manso que é só seu De me fazer rodeios De me beijar os seios Me beijar o ventre E me deixar em brasa Desfruta do meu corpo Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz Meu corpo é testemunha Do bem que ele me faz
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa
Roda-viva Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda-viva E carrega o destino pra lá Roda mundo, roda-gigante Roda-moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda-viva E carrega a roseira pra lá Roda mundo (etc.) A roda da saia, a mulata Não quer mais rodar, não senhor Não posso fazer serenata A roda de samba acabou A gente toma a iniciativa Viola na rua, a cantar Mas eis que chega a roda-viva E carrega a viola pra lá Roda mundo (etc.) O samba, a viola, a roseira Um dia a fogueira queimou Foi tudo ilusão passageira Que a brisa primeira levou No peito a saudade cativa Faz força pro tempo parar Mas eis que chega a roda-viva E carrega a saudade pra lá Roda mundo (etc.)
Bastidores Chorei, chorei Até ficar com dó de mim E me tranquei no camarim Tomei o calmante, o excitante E um bocado de gim Amaldiçoei O dia em que te conheci Com muitos brilhos me vesti Depois me pintei, me pintei Me pintei, me pintei Cantei, cantei Como é cruel cantar assim E num instante de ilusão Te vi pelo salão A caçoar de mim Não me troquei Voltei correndo ao nosso lar Voltei pra me certificar Que tu nunca mais vais voltar Vais voltar, vais voltar Cantei, cantei Nem sei como eu cantava assim Só sei que todo o cabaré Me aplaudiu de pé Quando cheguei ao fim Mas não bisei Voltei correndo ao nosso lar Voltei pra me certificar Que tu nunca mais vais voltar Vais voltar, vais voltar Cantei, cantei Jamais cantei tão lindo assim E os homens lá pedindo bis Bêbados e febris A se rasgar por mim Chorei, chorei Até ficar com dó de mim
Olhos nos olhos Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando Me pego cantando Sem mas nem porque E tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você Quando talvez precisar de mim 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz
Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno.
Está provado, quem espera nunca alcança.
Corro atrás do tempo. Vim de não sei onde. Devagar é que não se vai longe.
Eu semeio o vento na minha cidade, Vou pra rua e bebo a tempestade.
Ouça um bom conselho Que eu lhe dou de graça Inútil dormir que a dor não passa.
E pela minha lei, a gente era obrigada a ser feliz.
Ai, que saudades que eu tenho Dos meus doze anos Que saudade ingrata Dar banda por aí Fazendo grandes planos E chutando lata Trocando figurinha Matando passarinho Colecionando minhoca Jogando muito botão Rodopiando pião Fazendo troca-troca Ai, que saudades que eu tenho Duma travessura Um futebol de rua Sair pulando muro Olhando fechadura E vendo mulher nua Comendo fruta no pé Chupando picolé Pé-de-moleque, paçoca E disputando troféu Guerra de pipa no céu Concurso de pipoca
Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve, e me retirei com pés de lã. Sei que o seu caminho amanhã, será tudo de bom, mas não me leve.
O Caderno Sou eu que vou seguir você Do primeiro rabisco Até o be-a-bá. Em todos os desenhos Coloridos vou estar A casa, a montanha Duas nuvens no céu E um sol a sorrir no papel Sou eu que vou ser seu colega Seus problemas ajudar a resolver Te acompanhar nas provas Bimestrais, você vai ver Serei, de você, confidente fiel Se seu pranto molhar meu papel Sou eu que vou ser seu amigo Vou lhe dar abrigo Se você quiser Quando surgirem Seus primeiros raios de mulher A vida se abrirá Num feroz carrossel E você vai rasgar meu papel O que está escrito em mim Comigo ficará guardado Se lhe dá prazer A vida segue sempre em frente O que se há de fazer Só peço, à você Um favor, se puder Não me esqueça Num canto qualquer
Sonhar um sonho impossível... Lutar, onde é fácil ceder... Vencer , o inimigo invencível... Negar quando a regra é vender... Romper a incabível prisão... Voar, no limite improvável.... Tocar o inacessível chão! É minha lei, é minha questão. Guiar este mundo, cravar este chão.
Sonhar Mais um sonho impossível Lutar Quando é fácil ceder Vencer o inimigo invencível Negar quando a regra é vender Sofrer a tortura implacável Romper a incabível prisão Voar num limite improvável Tocar o inacessível chão É minha lei, é minha questão Virar esse mundo Cravar esse chão Não me importa saber Se é terrível demais Quantas guerras terei que vencer Por um pouco de paz? E amanhã, se esse chão que eu beijei For meu leito e perdão Vou saber que valeu delirar E morrer de paixão E assim, seja lá como for Vai ter fim a infinita aflição E o mundo vai ver uma flor Brotar do impossível chão
A saudade é o revés de um parto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
Ai! Esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. Ai! Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um império colonial.
Quando ela chora Não sei se é dos olhos pra fora Não sei do que ri (...) (...) Ela faz cinema Ela faz cinema Ela é demais Talvez nem me queria bem Porém faz um bem que ninguém Me faz (...) Ela faz cinema Ela faz cinema Ela é assim Nunca será de ninguém Porém eu não sei viver sem E fim
Quem me vê sempre parado, distante Garante que eu não sei sambar Estou me guardando pra quando o carnaval chegar Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando E não posso falar Estou me guardando pra quando o carnaval chegar
Ela é a tal. Sei que ela pode ser mil, mas não existe outra igual.
Todo o Sentimento Preciso não dormir Até se consumar O tempo da gente. Preciso conduzir Um tempo de te amar, Te amando devagar e urgentemente. Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez, Que recolhe todo sentimento E bota no corpo uma outra vez. Prometo te querer Até o amor cair Doente, doente... Prefiro, então, partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente. Depois de te perder, Te encontro, com certeza, Talvez num tempo da delicadeza, Onde não diremos nada; Nada aconteceu. Apenas seguirei Como encantado ao lado teu.
Prefiro, então, partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente.
Valsa Brasileira Vivia a te buscar Porque pensando em ti Corria contra o tempo Eu descartava os dias Em que não te vi Como de um filme A ação que não valeu Rodava as horas pra trás Roubava um pouquinho E ajeitava o meu caminho Pra encostar no teu Subia na montanha Não como anda um corpo Mas um sentimento Eu surpreendia o sol Antes do sol raiar Saltava as noites Sem me refazer E pela porta de trás Da casa vazia Eu ingressaria E te veria Confusa por me ver Chegando assim Mil dias antes de te conhecer
Ouça um bom conselho Que eu lhe dou de graça Inútil dormir que a dor não passa Espere sentado Ou você se cansa Está provado, quem espera nunca alcança Venha, meu amigo Deixe esse regaço Brinque com meu fogo Venha se queimar Faça como eu digo Faça como eu faço Aja duas vezes antes de pensar Corro atrás do tempo Vim de não sei onde Devagar é que não se vai longe Eu semeio o vento Na minha cidade Vou pra rua e bebo a tempestade
Porque nesses seis meses tudo o que falamos antes virou barulho, fica difícil retomar a conversa.
Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos, mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão.
Almanaque Chico Buarque Ô menina vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou Diz quem é que marcava o tique-taque e a ampulheta do tempo disparou Se mamava de sabe lá que teta o primeiro bezerro que berrou Me responde, por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acaba Quem penava no sol a vida inteira, como é que a moleira não rachou Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi que a peneira esfuracou Quem pintou a bandeira brasileira que tinha tanto lápis de cor Me responde por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acaba Diz quem foi que fez o primeiro teto que o projeto não desmoronou Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto, e o valente primeiro morador Diz quem foi que inventou o analfabeto e ensinou o alfabeto ao professor Me responde por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acaba Quem é que sabe o signo do capeta, o ascendente de Deus Nosso Senhor Quem não fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor Quem tava no volante do planeta que o meu continente capotou Me responde por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acaba Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair o elevador Me responde por favor Pra que tudo começou Quando tudo acaba
Para sempre é sempre por um triz.
Bebeu veneno E vai morrer de rir Chico Buarque
E qualquer desatenção, faça não! Pode ser a gota d'água.
Essa moça tá diferente, já não me conhece mais. Está pra lá de pra frente, está me passando pra trás. Essa moça tá decidida a se supermodernizar. Ela só samba escondida que é pra ninguém reparar. Eu cultivo rosas e rimas achando que é muito bom. Ela me olha de cima e vai desiventar o som. Faço-lhe um concerto de flauta e não lhe desperto emoção. Ela quer ver o astronauta descer na televisão. Mas o tempo vai, mas o tempo vem. Ela me desfaz. Mas o que é que tem? Que ela só me guarda despeito, que ela só me guarda desdém. Mas o tempo vai. Mas o tempo vem. Ela me desfaz. Mas o que é que tem? Se do lado esquerdo do peito, no fundo, ela ainda me quer bem. Essa moça é a tal da janela que eu me cansei de cantar. E agora está só na dela, botando só pra quebrar.
Pois já forjou o seu sorriso E fez do mesmo profissão...
Olhos nos olhos Quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz
Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus.
O primeiro me chegou como quem vem do florista Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não O segundo me chegou como quem chega do bar Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar Indagou o meu passado e cheirou minha comida Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não O terceiro me chegou como quem chega do nada Ele não me trouxe nada também nada perguntou Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer Se deitou na minha cama e me chama de mulher Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração
Vem, me dê a mão; A gente agora já não tinha medo; No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.
Menino quando morre vira anjo; Mulher vira uma flor no céu; Malandro quando morre vira samba.
Chego a mudar de calçada Quando aparece uma flor E dou risada do grande amor...
Eu cultivo rosas e rimas, achando que é muito bom.
...o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração!
Eu faço samba e amor até mais tarde E tenho muito sono de manhã
Eu faço samba e amor até mais tarde E tenho muito mais o que fazer Escuto a correria da cidade, que alarde Será que é tão difícil amanhecer?
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e eu não posso pegar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Hoje lembrando-me dela; Me vendo nos olhos dela; Sei que o que tinha de ser se deu; Porque era ela; Porque era eu.
(...)Vê como é que anda aquela vida atoa, e se puder me manda uma notícia boa! (Samba de Orly)
Não se afobe não, que nada é pra já!
No meu descaminho Diz que estou sozinho E sem saber de mim
O que a ação revela sobre a pessoa? Ouça um bom conselho que lhe dou de graça Inútil dormir Que a dor não passa Espera sentado ou você se cansa Está provado Quem espera nunca alcança
Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz E atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis...
Sabia Gosto de você chegar assim Arrancando páginas dentro de mim Desde o primeiro dia Sabia Me apagando filmes geniais Rebobinando o século Meus velhos carnavais Minha melancolia Sabia Que você ia trazer seus instrumentos E invadir minha cabeça Onde um dia tocava uma orquestra Pra companhia dançar Sabia Que ia acontecer você, um dia E claro que já não me valeria nada Tudo o que eu sabia Um dia
Pedaço de mim Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos descreve um arco E evita atracar no cais Oh, pedaço de mim Oh, metade arrancada de mim Leva o vulto teu Que a saudade é o revés de um parto A saudade é arrumar o quarto Do filho que já morreu Oh, pedaço de mim Oh, metade amputada de mim Leva o que há de ti Que a saudade dói latejada É assim como uma fisgada No membro que já perdi Oh, pedaço de mim Oh, metade adorada de mim Leva os olhos meus Que a saudade é o pior castigo E eu não quero levar comigo A mortalha do amor Adeus
A dor da gente não sai no jornal.
Futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que eu um dia deixei para você.
Como é dificil acordar calado. Se na calada da noite eu me dano. Quero lançar um grito desumano.
Arrisquei muita braçada; Na esperança de outro mar; Hoje sou carta marcada; Hoje sou jogo de azar
Um coração saliente bate E bate muito mais que sente
O homem mais forte do planeta Tórax de Superman Tórax de Superman E coração de poeta
Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio...
Se Eu Fosse Teu Patrão Eu te adivinhava E te cobiçava E, te arrematava em leilão Te ferrava a boca, morena Se eu fosse o teu patrão Aí, eu tratava Como uma escrava Aí, eu não te dava perdão Te rasgava a roupa, morena Se eu fosse o teu patrão Eu te encarcerava Te acorrentava Te atava ao pé do fogão Não te dava sopa, morena Se eu fosse o teu patrão Eu encurralava Te dominava Te violava no chão Te deixava rota, morena Se eu fosse o teu patrão Quando tu quebrava E tu desmontava E tu não prestava mais não Eu comprava outra, morena Se eu fosse o teu patrão Pois eu te pagava direito Soldo de cidadão Punha uma medalha em teu peito Se eu fosse o teu patrão O tempo passava sereno E sem reclamação Tu nem reparava, moreno Na tua maldição E tu só pegava veneno Beijando a minha mão Ódio te abrandava, moreno Ódio do teu irmão Teu filho pegava gangrena Raiva, peste e sezão Cólera na tua morena E tu não chiava não Eu te dava café pequeno E manteiga no pão Depois te afagava, moreno Como se afaga um cão Eu sempre te dava esperança D'um futuro bão Tu me idolatrava, criança Seu eu fosse o teu patrão Mas se tu cuspisse no prato Onde comeu feijão Eu fechava o teu sindicato Se eu fosse o teu patrão
Seu homem foi-se embora Prometendo voltar já Mas as ondas não tem hora, morena De partir ou de voltar
Não brilharia a estrela ó bela Sem noite por detrás
Abre teu coração Ou eu arrombo a janela
O olhar de uma mulher faz pouco até de Deus Mas não engana uma outra mulher
Porém, ai porém Visto que a vida gosta de uns ardis No dia em que ao seu lado ele sonhar feliz, feliz assim Feche então você seus olhos por favor E pode estar certa que o seu novo amor Resolveu voltar pra mim
As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.
Imagina hoje à noite a gente se perder Imagina hoje à noite a lua se apagar
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz...
No palco, na praça, no circo, num banco de jardim, correndo no escuro, pichado no muro... Você vai saber de mim.
Mesmo que você fuja de mim Por labirintos e alçapões saiba que os poetas como os cegos podem ver no escuro. E eis que, menos sábios do que antes Os seus lábios ofegantes Hão-de se entregar assim: ME LEVE ATÉ O FIM!
E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz, você era a princesa que eu fiz coroar e era tão linda de se adimirar!!!
Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar?
Essa moça tá diferente Já não me conhece mais Está pra lá de pra frente Está me passando pra trás Essa moça tá decidida
Eu bato o portão sem fazer alarde Eu levo a carteira de identidade Uma saideira, muita saudade E a leve impressão de que já vou tarde
Diga ao primeiro que passa que eu sou da cachaça mais do que do amor.
Depois de te perder, Te encontro, com certeza, Talvez num tempo da delicadeza...
Preciso conduzir um tempo de te amar, te amando devagar e urgentemente.
Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo.
Eu sou seu incesto; Sou perfeita porque; Igualzinha a você; Eu não presto
Venha, meu amigo Deixe esse regaço Brinque com meu fogo Venha se queimar Faça como eu digo Faça como eu faço Aja duas vezes antes de pensar
Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante Milênios, milênios No ar (...) Não se afobe, não Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você
Agora eu era o rei Era o bedel e era também juiz E pela minha lei A gente era obrigado a ser feliz E você era a princesa que eu fiz coroar E era tão linda de se admirar Que andava nua pelo meu país
Eu canto a dor que eu não soube chorar.
Nunca é tarde, nunca é demais. Onde estou, onde estás. Meu amor, vem me buscar.
E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer. A memória é uma vasta ferida.
Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante Milênios, milênios No ar
As batidas do coração jamais deveriam se escravizar aos tiquetaques desencontrados de dois relógios diferentes.
Talvez nem me queira bem. Porém faz um bem que ninguém me faz.
Quando chegar o momento, esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro.
Eu vou rasgar meu coração pra costurar o teu.
Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de 'desinventar'.
Mesmo com o todavia Com todo dia Com todo ia Todo não ia A gente vai levando
És pagina virada; Descartada do meu folhetim.
Não me leve a mal; Me leve à toa pela última vez
Sinto que, ao cruzar a cancela, não estarei entrando em algum lugar, mas saindo de todos os outros.
Não tem mais jeito, a gente não tem cura.
O nosso amor é tão bom. O horário é que nunca combina.
Ontem vi tudo acabado, meu céu desastrado, medo, solidão, ciúme. Hoje contei as estrelas e a vida parece um filme.
Mesmo que você fuja de mim Por labirintos e alçapões Saiba que os poetas como os cegos Podem ver na escuridão
Não há mais porta, mas também não tenho mais vontade de entrar.
Não sei por que você não me alivia a dor. Todo dia a senhora levanta a persiana com bruteza e joga sol no meu rosto. Não sei que graça pode achar dos meus esgares, é uma pontada cada vez que respiro. Às vezes aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável, para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor. Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz. Quando perdi minha mulher, foi atroz. E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida. Mas nem assim você me dá os remédios, você é meio desumana.
Eu por mim sonhava com você em todas as cores, mas meus sonhos são que nem cinema mudo, e os atores já morreram há tempos.
Daí a eterna impaciência, e adoro ver seus olhos de rapariga rondando a enfermaria: eu, o relógio, a televisão, o celular, eu, a cama do tetraplégico, o soro, a sonda, o velho do Alzheimer, o celular, a televisão, eu, o relógio de novo, e não deu nem um minuto. Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus, para pensar no galã da novela, nas mensagens do celular, na menstruação atrasada.
E urgia compreender melhor o desejo que me descontrolara, eu nunca havia sentido coisa semelhante. Se desejo era aquilo, posso dizer que antes de Matilde eu era casto.
Bom dia, flor do dia, mas deve haver modos menos agourentos de se despertar que com uma filha choramingando à cabeceira. E pelo visto, mais uma vez você veio sem os meus cigarros, que dirá os charutos. Que é proibido fumar aqui dentro eu sei, mas dá-se um jeito, também não estou lhe pedindo para entrar no hospital com cocaína.
Eu também gostaria de ter conhecido meu trisavô, gostaria que meu pai me acompanhasse mais um pouco, gostaria sobretudo que Matilde me sobrevivesse, e não o contrário. Não sei se existe um destino, se alguém o fia, enrola, corta. Nos dedos de alguma fiandeira, provavelmente a linha da vida de Matilde seria de fibra melhor que a minha, e mais extensa. Mas muitas vezes uma vida para no meio do caminho, não por ser a linha curta, e sim tortuosa. Depois que me deixou, nem posso imaginar quantas aflições Matilde teve em sua existência. Sei que a minha se alongou além do suportável, como linha que se esgarça. Sem Matilde, eu andava por aí chorando alto, talvez como aqueles escravos libertos de que se fala. Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, por¬que minha pele tinha ficado presa naquela mulher.
Se soubesse como gosto das suas cheganças, você chegaria correndo todo dia. É a única mulher que ainda me estima, se você me faltar morro de inanição. Sem você me enterrariam como indigente, meu passado se apagaria, ninguém registraria a minha saga.
Já foi provado...quem espera nunca alcança!
E quando ela está nos meus braços; As tristezas parecem banais; O meu coração aos pedaços; Se remenda prum número a mais.
Eu tô só vendo, sabendo, Sentindo, escutando e não posso falar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar, tô me guardando para quando o carnaval chegar.
Fortaleza A minha tristeza não é feita de angústias... A minha surpresa é só feita de fatos. De sangue nos olhos e lama nos sapatos... Minha fortaleza é de um silêncio infame Bastando a si mesma, retendo o derrame
Alô, liberdade. Desculpa eu vir assim sem avisar, mas já era tarde. Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar. E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz Vem, mas vem sem fantasia. É sempre bom lembrar que um copo vazio esta cheio de ar.
Talvez seja da minha natureza não me sentir pertencendo totalmente a lugar nenhum, em lugar nenhum.
Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem?
Agora já não é normal O que dá de malandro regular, profissional Malandro com aparato de malandro oficial Malandro candidato a malandro federal Malandro com retrato na coluna social Malandro com contrato, com gravata e capital Que nunca se dá mal…
Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça: inútil dormir que a dor não passa. Espere sentado, ou você se cansa. Está provado: quem espera nunca alcança. Faça como eu digo, faça como eu faço; aja duas vezes antes de pensar. Corro atrás do tempo. Vim de não sei d’onde… devagar é que não se vai longe. Eu semeio o vento na minha cidade, vou pra rua e bebo a tempestade.
Tantos rodeios pra enfim me roubar; Coisas que dele já são
Já passou, já passou. Se você quer saber, eu já sarei, já curou. Me pegou de mal jeito mas não foi nada, estancou.
Aquela esperança de tudo se ajeitar… Pode esquecer.
A saudade é o pior tormento. é pior do que o esquecimento.
Seis da tarde Como era de se esperar Ela pega E me espera no portão Diz que está muito louca Prá beijar E me beija com a boca De paixão...
Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça: inútil dormir que a dor não passa. Espere sentado ou você se cansa. Está provado, quem espera nunca alcança.
E nada como um tempo após um contratempo pro meu coração.
"Tudo está na natureza encadeado e em movimento – cuspe, veneno, tristeza, carne, moinho, lamento, ódio, dor, cebola e coentro, gordura, sangue, frieza, isso tudo está no centro de uma mesma e estranha mesa. Misture cada elemento – uma pitada de dor, uma colher de fomento, uma gota de terror. O suco dos sentimentos, raiva, medo ou desamor, produz novos condimentos, lágrima, pus e suor, mas, inverta o segmento, intensifique a mistura, temperódio, lagrimento, sangalho com tristezura, carnento, venemoinho, remexa tudo por dentro, passe tudo no moinho, moa a carne, sangre o coentro, chore e envenene a gordura: você terá um ungüento, uma baba, grossa e escura, essência do meu tormento e molho de uma fritura de paladar violento que, engolindo, a criatura repara o meu sofrimento co'a morte, lenta e segura. Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca. Meus filhos, vocês vão lá na solenidade, digam à moça que a mamãe está contente tanto assim que lhe preparou este presente pra que ela prove como prova de amizade. Beijem seu pai, lhe desejem felicidade co’a moça e voltem correndo, que eu e vocês também vamos comemorar, sós, só nós três, vamos mastigar um naco de eternidade."
Canção de Pedroca Quando nos apaixonamos Poça d'água é chafariz Ao olhar o céu de Ramos Vê-se as luzes de Paris No verão é uma delícia A brisa fresca de Bangu Mesmo um cabo de polícia Só nos diz merci beaucoup Eu ouço um samba de breque Com Maurice Chevalier Bebo com Toulouse Lautrec No bar do Caxinguelê Daí ninguém mais estranha O Louvre na Praça Mauá E o borbulhar de champanha Num gole de guaraná Cascadura é Rive Gauche O Mangue é Champs Elisées Até mesmo um bate-coxa Faz lembrar um pas-de-deux Purê de batata roxa Parece marron glacé
Quando enfim eu nasci minha mãe embrulhou-me num manto Me vestiu como se fosse assim uma espécie de santo Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher Me ninava cantando cantigas de cabaré
Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…
Eu quero fazer silêncio Um silêncio tão doente Do vizinho reclamar E chamar polícia e médico E o síndico do meu tédio Pedindo pra eu cantar
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz O meu amor tem um jeito manso que é só seu Que me deixa maluca, quando me roça a nuca E quase me machuca com a barba mal feita E de pousar as coxas entre as minhas coxas Quando ele se deita
Ela esquenta a papa do neto Ele quase que fez fortuna Vão viver sob o mesmo teto até que a morte os una até que a morte os una
Como num romance O homem dos meus sonhos Me apareceu no dancing Era mais um Só que num relance Os seus olhos me chuparam Feito um zoom
Lá no morro De amor o sangue corre moça chorando Que o verdadeiro amor sempre é o que morre
Eu vou virar artista Ficar famosa, falar inglês Autografar com as unhas Eu vou, nas costas do meu freguês
Ao povo nossas carícias Ao povo nossas carências Ao povo nossas delícias E nossas doenças
Já gozei de boa vida Tinha até meu bangalô Cobertor, comida Roupa lavada Vida veio e me levou
mor, eu me lembro ainda Que era linda, muito linda Um céu azul de organdi A camisola do dia Tão transparente e macia Que eu dei de presente a ti Tinha rendas de Sevilha A pequena maravilha Que o teu corpinho abrigava E eu, eu era o dono de tudo Do divino conteúdo Que a camisola ocultava A camisola que um dia Guardou a minha alegria Desbotou, perdeu a cor Abandonada no leito Que nunca mais foi desfeito Pelas vigílias de amor
De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo Que eu sou professor
Criei barriga, a minha mula empacou Mas vou até o fim Não tem cigarro acabou minha renda Deu praga no meu capim Minha mulher fugiu com o dono da venda O que será de mim ? Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou Mas vou até o fim
Eu quero que mamãe me veja pintando a boca em coração Será que vai morrer de inveja ou não Ai, se papai me pega agora abrindo o último botão Será que ele me leva embora ou não Será que fica enfurecido será que vai me dar razão Chorar o seu tempo vivido em vão
É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio É a terra que querias ver dividida Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada, não se abre a boca.
Eu gostava de falar mal do governo quando os jornais não o faziam.
Corro atrás do tempo Vim de não sei onde Devagar é que não se vai longe Eu semeio o vento Na minha cidade Vou pra rua e bebo a tempestade
Sou bandida Sou solta na vida E sob medida Pros carinhos teus Meu amigo Se ajeite comigo E dê graças a Deus
Eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz... Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.
Acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus, ou quando sua risada se confunde com a minha.
Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos olhos, quero ver o que você faz, ao sentir que sem você, eu passo bem demais. E que venho até remoçando, que me pego até cantando, sem mais, nem porquê. Quando talvez precisar de mim, cê sabe que a casa é sua, venha sim! Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, quero ver como suporta me ver tão feliz!!
Às vezes o que a gente procura, não é o que a gente procura. É o que a gente encontra.
Te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua.
O meu amor tem um jeito manso que é só seu, que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes. Depois brinca comigo, ri do meu umbigo, e me crava os dentes. Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.
"E quando ela está nos meus braços; As tristezas parecem banais; O meu coração aos pedaços; Se remenda prum número a mais"
'Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar, mas se o destino insistir em nos separar; danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, sinopses, espelhos, conselhos, que se dane o evangelho e todos os orixás, serás o meu amor, serás a minha paz.'
Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois por algum viés da lembrança.
Dizia "te amo mais que tudo" no meio do almoço, dizia no cinema, no supermercado, na frente dos outros; eu achava estranho ela dizer isso a toda hora, mas acabei por me acostumar.
Ah! felicidade Em que vagão de trem noturno viajarás?
E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão, o seu nome rasguei Fiz um samba canção das mentiras de amor Que aprendi com você
Acorda amor Não é mais pesadelo nada
Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz e atrás dessa mulher mil homens, sempre tão gentis. Por isso, para o seu bem, ou tire ela da cabeça ou mereça a moça que você tem.
Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos olhos, Quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando, Me pego cantando, sem mais, nem por quê. Tantas águas rolaram, Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você. Quando talvez precisar de mim, Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim. Olhos nos olhos, Quero ver o que você diz. Quero ver como suporta me ver tão feliz.
Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei, também, que é preciso, pá Navegar, navegar Lá faz primavera, pá Cá estou doente Manda urgentemente Algum cheirinho de alecrim
Foi bonita a festa, pá Fiquei contente Ainda guardo renitente Um velho cravo para mim Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram uma semente Nalgum canto de jardim
Aqui na terra tão jogando futebol Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll Uns dias chove, noutros dias bate sol Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
O primeiro me chegou Como quem vem do florista: Trouxe um bicho de pelúcia, Trouxe um broche de ametista. Me contou suas viagens E as vantagens que ele tinha. Me mostrou o seu relógio; Me chamava de rainha. Me encontrou tão desarmada, Que tocou meu coração, Mas não me negava nada E, assustada, eu disse "não".
Hoje topei com alguns conhecidos meus Me dão bom-dia, cheios de carinho Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus Eles têm pena de eu viver sozinho
Ah, eu quero te dizer Que o instante de te ver Custou tanto penar Não vou me arrepender Só vim te convencer Que eu vim pra não morrer De tanto te esperar
Então! Disfarçar minha dor Eu não consigo dizer: Somos sempre bons amigos É muita mentira para mim...
Pois eu sonhei contigo e caí da cama. Ai, amor, não briga! Ai, não me castiga! Ai, diz que me ama e eu não sonho mais!
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês Esperando, esperando, esperando, esperando o sol Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem Esperando a festa, esperando a sorte E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também
- Quem é você? - Adivinha, se gosta de mim! Hoje os dois mascarados Procuram os seus namorados Perguntando assim: - Quem é você, diga logo... - Que eu quero saber o seu jogo... - Que eu quero morrer no seu bloco... - Que eu quero me arder no seu fogo. - Eu sou seresteiro, Poeta e cantor. - O meu tempo inteiro Só zombo do amor. - Eu tenho um pandeiro. - Só quero um violão. - Eu nado em dinheiro. - Não tenho um tostão. Fui porta-estandarte, Não sei mais dançar. - Eu, modéstia à parte, Nasci pra sambar. - Eu sou tão menina... - Meu tempo passou... - Eu sou Colombina! - Eu sou Pierrô! Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você! Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar, Deixa o barco correr. Deixa o dia raiar, que hoje eu sou Da maneira que você me quer. O que você pedir eu lhe dou, Seja você quem for, Seja o que Deus quiser! Seja você quem for, Seja o que Deus quiser!
Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração...
Tudo tomou seu lugar depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar...
Sem açúcar Todo dia ele faz diferente Não sei se ele volta da rua Não sei se me traz um presente Não sei se ele fica na sua Talvez ele chegue sentido Quem sabe me cobre de beijos Ou nem me desmancha o vestido Ou nem me adivinha os desejos Dia ímpar tem chocolate Dia par eu vivo de brisa Dia útil ele me bate Dia santo ele me alisa Longe dele eu tremo de amor na presença dele me calo Eu de dia sou sua flor Eu de noite sou seu cavalo A cerveja dele é sagrada A vontade dele é a mais justa A minha paixão é piada A sua risada me assusta Sua boca é um cadeado E meu corpo é uma fogueira Enquanto ele dorme pesado Eu rolo sozinha na esteira
É preciso sempre desconfiar das coisas fáceis.
Esse silêncio todo me atordoa; Atordoado eu permaneço atento
Só peço a você um favor Se puder Não me esqueça num canto qualquer.
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe...
Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquigrafa, você está aí?
Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.
“Sei que ela pode ser mil, mas não existe outra igual.”
Você que inventou esse estado E inventou de inventar Toda a escuridão Você que inventou o pecado Esqueceu-se de inventar O perdão Vou cobrar com juros, juro Todo esse amor reprimido Esse grito contido Este samba no escuro Você que inventou a tristeza Ora, tenha a fineza De desinventar
Eu sei que o sonho era bom porque ela sorria até quando chovia.
Eu até que nem gostava De sair da minha casa Mas quando eu menos esperava Parece que criei asa.
Diz que eu não sou de respeito Diz que não dá jeito De jeito nenhum Diz que eu sou subversivo Um elemento ativo Feroz e nocivo Ao bem-estar comum Fale do nosso barraco Diga que é um buraco Que nem queiram ver Diga que o meu samba é fraco E que eu não largo o taco Nem pra conversar com você Mas fica Mas fica ao lado meu Você sai e não explica Onde vai e a gente fica Sem saber se vai voltar Diga ao primeiro que passa Que eu sou da cachaça Mais do que do amor Diga e diga de pirraça De raiva ou de graça No meio da praça, é favor Mas fica Mas fica ao lado meu Você sai e não explica Onde vai e a gente fica Sem saber se vai voltar Diz que eu ganho até folgado Mas perco no dado E não lhe dou vintém Diz que é pra tomar cuidado Sou um desajustado E o que bem lhe agrada, meu bem Mas fica Mas fica, meu amor Quem sabe um dia Por descuido ou poesia Você goste de ficar
Olha você tem todas as coisas, que um dia eu sonhei pra mim.
“Oscar Niemeyer teve uma vida muito bonita. Foi um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte”.
Dizem que do mundo todo nada ainda eu descobri, mas de que vale o mundo todo, se todo o meu mundo é aqui ?
Morre de amor quem é capaz.
Tentou contra a existência Num humilde barracão Joana de Tal Por causa de um tal João Depois de medicada Retirou-se pro lar Aí a notícia Carece de exatidão O lar não mais existe Ninguém volta ao que acabou Joana é mais uma mulata triste Que errou Errou na dose Errou no amor Joana errou de João Ninguém notou Ninguém morou Na dor que era o seu mal A dor da gente Não sai no jornal
Dorme, minha pequena Não vale a pena despertar
Mas devo dizer que não vou lhe dar O enorme prazer de me ver chorar
O professor é muito especial na nossa vida acadêmica e profissional. Mas a educação vem de casa, dos pais.
Dura a vida alguns instantes porém mais do que bastantes quando cada instante é sempre.
Quem me vê sempre parado, Distante garante que eu não sei sambar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Eu tô só vendo, sabendo, Sentindo, escutando e não posso falar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Eu vejo as pernas de louça Da moça que passa e não posso pegar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Há quanto tempo desejo seu beijo Molhado de maracujá... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar E quem me ofende, humilhando, pisando, Pensando que eu vou aturar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar E quem me vê apanhando da vida, Duvida que eu vá revidar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Eu vejo a barra do dia surgindo, Pedindo pra gente cantar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Eu tenho tanta alegria, adiada, Abafada, quem dera gritar... Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Tô me guardando pra quando o carnaval chegar Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...
“Mas o sentimento de inadequação, de estrangeirismo, carrego dentro de mim. Talvez seja da minha natureza não me sentir pertencendo a lugar nenhum, em lugar nenhum.”
O que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto e que no entanto, volta sempre a enfeitiçar?
...Há de haver algum lugar Um confuso casarão Onde os sonhos serão reais E a vida não Por ali reinaria meu bem Com seus risos, seus ais, sua tez E uma cama onde à noite Sonhasse comigo Talvez Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados Vão parar Entre escadas que fogem dos pés E relógios que rodam pra trás Se eu pudesse encontrar meu amor Não voltava Jamais
Minhas dores eram crônicas, eu já previa onde e quando iam doer.
"Todo dia eu só penso em poder parar; Meio-dia eu só penso em dizer não, Depois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão." Chico Buarque
"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar, e nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar"
“Me dê noticia de você, eu gosto um pouco de chorar, a gente quase não se vê, me deu vontade de lembrar. Me leve um pouco com você, eu gosto de qualquer lugar, a gente pode se entender e não saber o que falar. Seria um acontecimento, mas lógico que você some, no dia em que o seu pensamento me chamou; eu chamo o seu apartamento, não mora ninguém com esse nome, que linda a cantiga do vento; já passou. A gente quase não se vê, eu só queria me lembrar, me dê noticia de você, me deu vontade de voltar.”
Se soubesse como eu gosto das suas cheganças, você chegaria correndo todos os dias.
Eu não sabia explicar nós dois Ela mais eu Porque eu e ela Não conhecia poemas Nem muitas palavras belas Mas ela foi me levando pela mão Íamos todos os dois Assim ao léu Ríamos, choravamos sem razão Hoje lembrando-me dela Me vendo nos olhos dela Sei que o que tinha de ser se deu Porque era ela Porque era eu
Talvez nem me queira bem, porém faz um bem que ninguém faz.
Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando Me pego cantando Sem mais nem porquê E tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você Quando talvez precisar de mim Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz
"Eu, que não digo Mas ardo de desejo Te olho Te guardo Te sigo Te vejo dormir."
Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são
“Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar, mas se o destino insistir em nos separar; danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os buzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, sinopses, espelhos, conselhos, que se dane o evangelho e todos os orixás, serás o meu amor, serás a minha paz.”
Mas se o destino insistir em nos separar, danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás… Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz! Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela, está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz… Serás o meu amor, serás a minha paz!
Se nós, nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto as nossas pernas. Diz com que pernas eu devo seguir"
Acho a coisa mais simples, mais definitiva, pra explicar o amor entre duas pessoas: gostava dela porque era ela, porque era eu.
"Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos Com tantos segredos lindos e indecentes Depois brinca comigo, ri do meu umbigo E me crava os dentes.."
Receita para virar a casaca Amigo ciro muito te adimiro o meu chapeu pra ti eu tiro muito humildemente minha petiz agradece a camisa que lhe deste a gulsa de gentil presente mas caro nego um pano rubro negro é presente de grego não de um bom irmão nós separados nas arquibancadas temos sido tão chegados na desolação amigo velho amei o teu conselho amei o teu vermelho que é de tanto ardor mas quis o verde que te quero verde é bom pra quem vai ser um bom sofredor pintei de branco o teu preto ficando completo o jogo da cor virei-lhe o inlustrado do peito nasceu deste geito um outro tricolor.
Era uma noite que não tem mais fim Pois você sumiu no mundo sem me avisar E agora eu era um louco a perguntar O que é que a vida vai fazer de mim?
Nina diz que, embora nova Por amores já chorou que nem viúva Mas acabou, esqueceu E ela sempre se perguntava qual era o problema Amava muito? Sofria muito? Sentia muito. Vovó a colocou no colo e explicou a situação: Amar não é problema As pessoas são.
“Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado.”
Vou saber que valeu delirar E morrer de paixão E assim, seja lá como for Vai ter fim a infinita aflição E o mundo vai ver uma flor Brotar do impossível chão
Me ensina a não andar com os pés no chão Para sempre, é sempre por um triz...
Não solidão, hoje não quero me retocar Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas Deixo que as águas invadam meu rosto Gosto de me ver chorar Finjo que estão me vendo Eu preciso me mostrar.
Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados Vão parar.
O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia...
agora falando sério.. preferia não falar nada que distraísse o sono difícil, como acalanto eu quero fazer silêncio um silêncio tão doente do vizinho reclamar e chamar polícia e médico e o síndico do meu prédio pedindo para eu cantar..
No meu samba eu digo o que é de coração.
Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego...
A mão cega execute logo a pena, que o coração, tolo que é, pode perdoar.
Prometo te querer até o amor cair doente, doente. Prefiro, então, partir a tempo de poder a gente se desvencilhar da gente. Depois de te perder, te encontro com certeza. Talvez, num tempo da delicadeza, Onde não diremos nada, nada aconteceu; apenas seguirei, como encantado, ao lado teu.
Apesar de você Amanhã vai ser outro dia.
Tenho um passo marcado; um rumo traçado, sem discussão; Tenho um encontro marcado com a solidão
Saudade engole a gente, menina.
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.
Sabe, no fundo eu sou um sentimental Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da sífilis, é claro)* Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora... Meu coração tem um sereno jeito E as minhas mãos o golpe duro e presto De tal maneira que, depois de feito Desencontrado, eu mesmo me contesto Se trago as mãos distantes do meu peito É que há distância entre intenção e gesto E se o meu coração nas mãos estreito Me assombra a súbita impressão de incesto Quando me encontro no calor da luta Ostento a aguda empunhadora à proa Mas o meu peito se desabotoa E se a sentença se anuncia bruta Mais que depressa a mão cega executa Pois que senão o coração perdoa...
O meu amor tem um jeito manso que é só seu.
E um dia, afinal, Tinham direito a uma alegria fugaz Uma ofegante epidemia Que se chamava Carnaval
Dorme, minha pequena Não vale a pena despertar Eu vou sair por aí afora Atrás da aurora mais serena
Na verdade, minha vida e meu trabalho se confundem, nem eu mesmo sei direito quando estou trabalhando ou não.
Você não faz a música quando quer, você não escreve e tem uma boa ideia quando quer. Agora, você tem que estar disponível para as ideias surgirem.
De todas as maneiras que há de amar nós já nos amamos.
O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio.
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