Água Perrier Não quero mudar você nem mostrar novos mundos pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês Adoro esse olhar blasé que não só já viu quase tudo mas acha tudo tão déjà-vu mesmo antes de ver. Só proponho alimentar meu tédio. Para tanto, exponho a minha admiração. Você em troca cede o seu olhar sem sonhos à minha contemplação
Antonio Cicero
Antônio Cicero Correia Lima (1945-2024) foi um compositor, poeta, crítico literário, filósofo e escritor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Letras, publicou diversos livros, como "Poesia e filosofia" (2012) e "A cidade e os livros" (2002). Como compositor, escreveu letras para Lulu Santos, Maria Bethânia, entre outros cantores. Morreu em outubro de 2024, com 79 anos, após viajar até a Suíça para realizar eutanásia.
Frases e citações
Guardar Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro Do que um pássaro sem voos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.
não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.
Adoro esse olhar blasé que não só já viu quase tudo mas acha tudo tão déjà-vu mesmo antes de ver.
Adoro, sei lá por quê, esse olhar meio escudo que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.
Com que direito considerar o poema "Os Lusíadas", digamos, melhor ou mais memorável que a canção "A Eguinha Pocotó", quando muita gente prefere esta?
Eu espero acontecimentos, só que, quando anoitece, é festa no outro apartamento.
Guardar Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro Do que um pássaro sem voos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.
E eu não quero amor, nada de menos Dispense os jogos desses mais ou menos Pra que pequenos vícios Se o amor são fogos que se acendem sem artifícios
Se você não me quiser, eu vou respeitar. Eu juro. Como alguém que apaga a luz,mas tem seu altar no escuro. E no decorrer dos meses, já não sei mais quem eu sou. E a pessoa refletida no espelho dos seus olhos? Por onde foi que entrou? (...) Mas um dia foi você que soube apontar um futuro pra nós.
Enquanto o poema é a finalidade da poesia, a finalidade da filosofia é a própria filosofia.
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Canção do amor impossível Como não te perderia se te amei perdidamente se em teus lábios eu sorvia néctar quando sorrias se quando estavas presente era eu que não me achava e quando tu não estavas eu também ficava ausente se eras minha fantasia elevada à poesia se nasceste em meu poente como não te perderia
As livrarias Ia ao centro da cidade e me achava em livrarias, livros, páginas, Bagdad, Londres, Rio, Alexandria: Que cidade foi aquela em que me sonhei perder e antes disso acontecer aconteceu-me perdê-la?
Orelha, ouvido, labirinto: perdida em mim a voz do outro ecoa. Minto: perversamente sou-a.
O fim da vida e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada ela é tudo e o resto, nada.
Os juramentos que nós juramos entrelaçados naquela cama seriam traídos, se lembrados hoje. Eram palavras aladas e faladas não para ficar mas, encantadas, voar.
Muro E se um poema opaco feito muro te fizer sonhar noites em claro? E se justo o poema mais obscuro te resplandecer mais que o mais claro?
Dilema O que muito me confunde é que no fundo de mim estou eu e no fundo de mim estou eu. No fundo sei que não sou sem fim e sou feito de um mundo imenso imerso num universo que não é feito de mim. Mas mesmo isso é controverso se nos versos de um poema perverso sai o reverso. Disperso num tal dilema o certo é reconhecer: no fundo de mim sou sem fundo.
Territórios e conexões
Qualidade e enriquecimento
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