Ideal Aquela que eu adoro não é feita de lírios nem de rosas purpurinas, não tem as formas lânguidas, divinas, da antiga Vênus de cintura estreita. Não é a Circe, cuja mão suspeita compõe filtros mortais entre ruínas, nem a Amazona, que se agarra às crinas dum corcel e combate satisfeita. A mim mesmo pergunto, e não atino com o nome que dê a essa visão que ora amostra ora esconde o meu destino. É como uma miragem que entrevejo Ideal, que nasceu na solidão, Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
Antero de Quental
Antero Tarquínio de Quental (1842-1891) foi um poeta português, líder da geração realista, dedicou-se à instalação do pensamento socialista em Portugal.
Frases e citações
Nirvana Viver assim: sem ciúmes, sem saudades, Sem amor, sem anseios, sem carinhos, Livre de angústias e felicidades, Deixando pelo chão rosas e espinhos; Poder viver em todas as idades; Poder andar por todos os caminhos; Indiferente ao bem e às falsidades, Confundindo chacais e passarinhos; Passear pela terra, e achar tristonho Tudo que em torno se vê, nela espalhado; A vida olhar como através de um sonho; Chegar onde eu cheguei, subir à altura Onde agora me encontro - é ter chegado Aos extremos da Paz e da Ventura!
Meus dias vão correndo vagarosos, Sem prazer e sem dor parece Que o foco interior já desfalece E vacila com raios duvidosos. É bela a vida e os anos são formosos, E nunca ao peito amante o amor falece... Mas, se a beleza aqui nos aparece, Logo outra lembra de mais puros gozos. A outros céus aspira: Se um momento a prendeu mortal beleza, É pela eterna pátria que suspira... Porém, do pressentir dá-ma a certeza, Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira, Eu sempre bendirei esta tristeza!
Sonho Oriental Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha, Muito longe, nos mares do Oriente, Onde a noite é balsamica e fulgente E a lua cheia sobre as aguas brilha... O aroma da magnolia e da baunilha Paira no ar diaphano e dormente... Lambe a orla dos bosques, vagamente, O mar com finas ondas de escumilha... E emquanto eu na varanda de marfim Me encosto, absorto n'um scismar sem fim, Tu, meu amor, divagas ao luar, Do profundo jardim pelas clareiras, Ou descanças debaixo das palmeiras, Tendo aos pés um leão familiar.
Nirvana Viver assim: sem ciúmes, sem saudades, Sem amor, sem anseios, sem carinhos, Livre de angústias e felicidades, Deixando pelo chão rosas e espinhos; Poder viver em todas as idades; Poder andar por todos os caminhos; Indiferente ao bem e às falsidades, Confundindo chacais e passarinhos; Passear pela terra, e achar tristonho Tudo que em torno se vê, nela espalhado; A vida olhar como através de um sonho; Chegar onde eu cheguei, subir à altura Onde agora me encontro - é ter chegado Aos extremos da Paz e da Ventura!
Mors Amor Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me aparece Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas E terríveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavaleiro de expressão potente, Formidável, mas plácido, no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera estranha sem temor: E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!" Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
Mãe Mãe - que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mãos piedosas até o fio Do meu pobre existir, meio partido... Que me leve consigo, adormecido, Ao passar pelo sítio mais sombrio... Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido... Eu dava o meu orgulho de homem - dava Minha estéril ciência, sem receio, E em débil criancinha me tornava, Descuidada, feliz, dócil também, Se eu pudesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!
Contemplação Sonho de olhos abertos, caminhando Não entre as formas já e as aparências, Mas vendo a face imóvel das essências, Entre ideias e espíritos pairando... Que é o Mundo ante mim? fumo ondeando, Visões sem ser, fragmentos de existências... Uma névoa de enganos e impotências Sobre vácuo insondável rastejando... E dentre a névoa e a sombra universais Só me chega um murmúrio, feito de ais... É a queixa, o profundíssimo gemido Das coisas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim só pressentindo...
Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração.
Hino à Razão Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece. É a voz dum coração que te apetece, Duma alma livre, só a ti submissa. Por ti é que a poeira movediça De astros e sóis e mundos permanece; E é por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroísmo medra e viça. Por ti, na arena trágica, as nações Buscam a liberdade, entre clarões; E os que olham o futuro e cismam, mudos Por ti, podem sofrer e não se abatem , Mãe dos filhos robustos, que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
Mas quem de amor nos lábios traz doçura Esse é que leva a flor de uma alma pura!
Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo tronco ou ramo na incógnita floresta... Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquíssimo inimigo... Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; O, monstro primitivo, ergui a testa No limoso paúl, glauco pascigo... Hoje sou homem, e na sombra enorme Vejo, a meus pés, a escada multiforme, Que desce, em espirais, da imensidade... Interrogo o infinito e às vezes choro... Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro E aspiro unicamente à liberdade.
Com os Mortos Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, arrastados no giro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos... E eu mesmo, com os pés também imersos Na corrente e à mercê dos turbilhões, Só vejo espuma lívida, em cachões, E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei vivem comigo, Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem.
O Palácio da Ventura Sonho que sou um cavaleiro andante. Por desertos, por sóis, por noite escura, Paladino do amor, busco anelante O palácio encantado da Ventura! Mas já desmaio, exausto e vacilante, Quebrada a espada já, rota a armadura... E eis que súbito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aérea formosura! Com grandes golpes bato à porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! Abrem-se as portas d'ouro com fragor... Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silêncio e escuridão - e nada mais!
É preciso passar sobre ruínas, Como quem vai pisando um chão de flores!
Ter sido moço é ter sido ignorante, mas inocente.
Deixá-la ir, a alma lastimosa, Que perdeu fé e paz e confiança, À morte queda, à morte silenciosa…
Só quem sabe o que são lágrimas, só esse sabe o que é amor.
É a saudade, que nos rói e mina E gasta, como à pedra a gota d'água...
A estrada da vida anda alastrada De folhas secas e mirradas flores... Eu não vejo que os céus sejam maiores, Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!
Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora... É de noite que os tristes se procuram, E paz e união entre si juram...
Oceano Nox Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento Passava como o vôo do pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermitente, Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céu pesado e nevoento, E interroguei, cismando, esse lamento Que saía das coisas, vagamente... Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, força obscura? Em volta de que idéia gravitais? Mas na imensa extensão, onde se esconde O Inconsciente imortal, só me responde Um bramido, um queixume, e nada mais...
Na Mão de Deus Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração. Do palácio encantado da Ilusão Desci a passo e passo a escada estreita. Como as flores mortais, com que se enfeita A ignorância infantil, despojo vão, Depois do Ideal e da Paixão A forma transitória e imperfeita. Como criança, em lôbrega jornada, Que a mãe leva ao colo agasalhada E atravessa, sorrindo vagamente, Selvas, mares, areias do deserto... Dorme o teu sono, coração liberto, Dorme na mão de Deus eternamente!
À Virgem Santíssima Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia N'um sonho todo feito de incerteza, De nocturna e indizível ansiedade, É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza... Não era o vulgar brilho da beleza, Nem o ardor banal da mocidade... Era outra luz, era outra suavidade, Que até nem sei se as há na natureza... Um místico sofrer... uma ventura Feita só do perdão, só da ternura E da paz da nossa hora derradeira... Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa... E deixa-me sonhar a vida inteira!
Voz Interior (A João de Deus) Embebido n'um sonho doloroso, Que atravessam fantásticos clarões, Tropeçando n'um povo de visões, Se agita meu pensar tumultuoso... Com um bramir de mar tempestuoso Que até aos céus arroja os seus cachões, Através d'uma luz de exalações, Rodeia-me o Universo monstruoso... Um ai sem termo, um trágico gemido Ecoa sem cessar ao meu ouvido, Com horrível, monótono vaivém... Só no meu coração, que sondo e meço, Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, Em segredo protesta e afirma o Bem!
Divina Comédia Erguendo os braços para o céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: — «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, N'um turbilhão cruel e delirante... Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»
Mea Culpa Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo. Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, Nem chamo ao céu da vida noite fria; Não chamo à existencia hora sombria; Acaso, à ordem; nem à lei desleixo. A Natureza é minha mãe ainda... É minha mãe... Ah, se eu à face linda Não sei sorrir: se estou desesperado; Se nada há que me aqueça esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza... É de crer que só eu seja o culpado!
Logos Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias Com um nimbo de afectos e de idéias, Que são o meu princípio, meio e fim... Que estranho ser és tu (se és ser) que assim Me arrebatas contigo e me passeias Em regiões inominadas, cheias De encanto e de pavor... de não e sim... És um reflexo apenas da minha alma, E em vez de te encarar com fronte calma, Sobresalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te... Falo-te, calas... calo, e vens atento... És um pai, um irmão, e é um tormento Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!
No Circo Muito longe d'aqui, nem eu sei quando, Nem onde era esse mundo, em que eu vivia... Mas tão longe... que até dizer podia Que enquanto lá andei, andei sonhando... Porque era tudo ali aéreo e brando, E lúcida a existência amanhecia... E eu... leve como a luz... até que um dia Um vento me tomou, e vim rolando... Caí e achei-me, de repente, involto Em luta bestial, na arena fera, Onde um bruto furor bramia solto. Senti um monstro em mim nascer n'essa hora, E achei-me de improviso feito fera... — É assim que rujo entre leões agora!
Solemnia Verba Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera Agora, desta altura, fria e austera, Os ermos que regaram nossos prantos... Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! E a noite, onde foi luz a Primavera! Olha a teus pés o mundo e desespera, Semeador de sombras e quebrantos! Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do pensar tornado crente, Respondeu: Desta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se isto é vida, Nem foi demais o desengano e a dor.
Amor Vivo Amar! mas d'um amor que tenha vida... Não sejam sempre tímidos harpejos, Não sejam só delirios e desejos D'uma douda cabeça escandecida... Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser — e não só beijos Dados no ar — delírios e desejos — Mas amor... dos amores que têm vida... Sim, vivo e quente! e já a luz do dia Não virá dissipa-lo nos meus braços Como névoa da vaga fantasia... Nem murchará do sol á chama erguida... Pois que podem os astros dos espaços Contra débeis amores... se têm vida?
Tese e Antítese I Já não sei o que vale a nova idéia, Quando a vejo nas ruas desgrenhada, Torva no aspecto, à luz da barricada, Como bacchante após lúbrica ceia... Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e sossegada Ei-la presa das fúrias de Medeia! Um século irritado e truculento Chama à epilepsia pensamento, Verbo ao estampido de pelouro e obuz... Mas a idea é n'um mundo inalterável, N'um cristalino céu, que vive estável... Tu, pensamento, não és fogo, és luz! II N'um céu intemerato e cristalino Pode habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectáculo divino. Mas o homem, na terra onde o destino O lançou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante... Cá da terra blasfema ou ergue um hino... A idéia encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam, Paixões ardentes como vivos sóis! Combatei pois na terra árida e bruta, Té que a revolva o remoinhar da luta, Té que a fecunde o sangue dos heróis!
Transcendentalismo Já sossega, depois de tanta luta, Já me descansa em paz o coração. Caí na conta, enfim, de quanto é vão O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa. Penetrando, com fronte não enxuta, No sacrário do templo da Ilusão, Só encontrei, com dor e confusão, Trevas e pó, uma matéria bruta... Não é no vasto mundo — por imenso Que ele pareça à nossa mocidade — Que a alma sacia o seu desejo intenso... Na esfera do invisível, do intangível, Sobre desertos, vácuo, soledade, Vôa e paira o espírito impassível!
Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente! Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega... é presente... e só á dor assiste?... Assim, qual é a esperança que não mente? Desventura ou delirio?... O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro... Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.
Abnegação Chovam lírios e rosas no teu colo! Chovam hinos de glória na tua alma! Hinos de glória e adoração e calma, Meu amor, minha pomba e meu consolo! Dê-te estrelas o céu, flores o solo, Cantos e aroma o ar e sombra a palmar. E quando surge a lua e o mar se acalma, Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo! E nem sequer te lembres de que eu choro... Esquece até, esquece, que te adoro... E ao passares por mim, sem que me olhes, Possam das minhas lágrimas cruéis Nascer sob os teus pés flores fiéis, Que pises distraída ou rindo esfolhes!
Territórios e conexões
Qualidade e enriquecimento
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